quinta-feira, maio 21, 2009

Texto de Apresentação - "Caminho da Vontade" - por Xavier Zarco

Conheço o Paulo Afonso Ramos há cerca de um ano. Foi na bela vila alentejana do Alvito, aquando da apresentação de um livro meu: “O livro do regresso” e de um outro do excelente poeta José-Augusto de Carvalho.

Começámos a conversar, a trocar ideias sobre a forma de estar nestas coisas da escrita. Acabei, por sugestão dele, por entrar no grupo Luso-Poemas e tive o prazer de prefaciar e apresentar o seu volume: “Mínimos instantes”.

Não satisfeitos com os meros almoços e jantares que estas coisas propiciam, um bom tempo mais tarde entendemos que era a hora, a tal hora pessoana, de se fazer qualquer coisa de diferente.

Pois bem... armámo-nos em empresários, melhor: em editores. E cá andamos, felizes e contentes, porque mesmo que tenhamos sérias divergências sobre alguns pormenores, estamos safos. Ele para as bandas de Lisboa e eu na minha bela Santa Clara, em Coimbra.

Como escritor, Paulo Afonso Ramos tem, na minha opinião, o mérito de prender o leitor e ade a essa característica o mérito do saber organizar um livro. Torná-lo, não numa compilação de textos, mas num corpo arquitectónico solidamente urdido.

Tal como Antonio Machado, que dizia não existir caminho, mas caminhar, Paulo Afonso Ramos, neste seu: “Caminho da vontade”, preconiza esse princípio.

Mostra-nos portanto um conceito de necessidade de alcançar algo para o valorar. Qualquer coisa, material ou imaterial, só se torna de facto algo para nós a partir do instante em que dela temos noção. Daí a necessidade de aprimorar o conhecimento das coisas do mundo.

Talvez por isso, e digo talvez porque só o autor poderá dizer se essa era ou não a intenção, logo nas páginas iniciais se encontre uma citação de Allan Poe e que é a seguinte:

“Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só de noite”

Urge portanto depurar a máscara para a revelação do rosto. A máscara que nos auxilia a enfrentar o dia deve ser qual pedra sob o olhar do escultor. Há que retirar o excesso, criando condições para meditar sobre o que nos rodeia para desta forma se traçarem objectivos, mas sobretudo para que se faça o caminho, aquele que fazemos caminhando, e assim cumprir os desígnios da vontade.

Mas o poeta é um fingidor, escreve Pessoa, portanto tem de haver precaução no que se lê, ou, como diz o povo, saber que nem tudo o que reluz é ouro.

E o poeta inicia o seu caminhar exactamente com essa citação, servindo esta de epígrafe a “O poema enganador”. Mas não é, na minha leitura, um mero aviso ao leitor do que se segue seja ou não fingimento, antes nos recorda de que a poesia é arte e, como tal, criação do Homem, exercício intelectual edificado para fruição do outro.

Paulo Afonso Ramos lega-nos possíveis pistas para esse exercício como, por exemplo, e passo a citar:

“Escrevo com o sangue ainda quente” ou “Escrevo a ideia” ou “E a gente lê o que escreve / sonha” para concluir que “há um poeta que luta (...) / que inventa um novo mundo que nunca teve”.

Nestes quatro excertos de “O poema enganador” há um movimento implícito. Repare-se em “o sangue ainda quente”, como se nos dissesse que recolheu agora, neste momento, sensações da sua vida, digamos assim, normal porque desperto para o espanto, o tal sonhar de dia.

Mas essas sensações têm de ser transformadas, há que torná-las ideia (“escrevo a ideia”) e posteriormente a metamorfose através do sonho (“a gente lê o que escreve / sonha). Recordo estes versos de António Gedeão: “quando o homem sonha / o mundo pula e avança”.

Finalmente, após este processo de depuração, a invenção do mundo, através da acção, o poeta que luta.

Este é o fazer-se caminho pela vontade porque, como refere José Félix no prefácio a esta obra: “a vida é falsa, logo é função da poesia corrigi-la; a vida é vil, cumpre à poesia torná-la sublime; a vida é imperfeita, cumpre à poesia torná-la perfeita poeticamente”.

E cada passo adicionado ao caminho tem um ensejo que se revela no poema “Transmutação” em que o poeta afirma, e passo a citar: “Um dia morrerá o personagem / para que nasça o homem”.

A poesia, embora mundo outro, tem, não direi a obrigação, mas a possibilidade de mudar o mundo. E este é o caminho que só a vontade pode desenhar.

Xavier Zarco

1 comentário:

Vera disse...

Palavras merecidas Paulo! O Xavier foi soberbo :)

Beijo