sábado, janeiro 26, 2008

Peça… de Teatro e da Vida!

Hall do Hotel Garden. Juan de fato azul-escuro e gravata azul-bebé, gabardina num braço e computador portátil na outra mão, entra no hotel, passa pelas flores situadas na sala de espera e leitura, e dirige-se à recepção para confirmar a sua reserva para aquela noite.
O ambiente é sereno. São poucas pessoas que estão por ali. A Juan não lhe passa despercebido a mulher que está no cadeirão da sala, mesmo à frente da recepção.
Sentada. Parece ser alta e esguia, cabelo preto e um olhar penetrante. Linda sem qualquer dúvida…para Juan ou para qualquer homem!
Há uma troca, observadora, de olhares. Há um primeiro momento, disfarçado, de aproximação.
Juan é bem recebido pelo gerente do hotel. Depois de confirmados os seus dados e de saber que essa noite iria ficar no quarto 304, dirige-se para um dos elevadores e sobe para o seu quarto. Antes de a porta do elevador fechar, outra troca de olhar acontece… há um segundo momento, assumido, de proximidade…

Restaurante do Hotel. 20 Horas. Juan desce para jantar. Entra no restaurante que está cheio de pessoas de perfil empresarial e é recebido pelo Chefe de Sala que o acompanha a uma mesa mais discreta e colocada estrategicamente, (de onde se pode observar a sala com maior capacidade) que estava reservada para si.
Juan como homem de negócios de enorme sucesso, está habituado pensar de forma rápida e sem oscilações, pelo que dá um olhar fugidio pelo menu e rapidamente decide. Pede o costume… Uma entrada de “Gambas á Gilho” e um “Bife á Chefe”.
Enquanto espera, lê o jornal de negócios e controla a sala de uma forma despercebida.
Há um momento que a sua atenção é “puxada” para a entrada… sem que perceba porquê, mas nem tem tempo para pensar, porque vê uma mulher vistosa a entrar sozinha… era ela novamente. Toda sala, inconscientemente, repara naquela esbelta mulher, que lida com essa situação com agrado, demonstrando estar habituada a ser o centro das atenções, em especial dos homens.
Depois de uma pequena conversa com o Chefe de Sala, é acompanhada por este, para a mesa mais próxima de Juan.
Ela. Enquanto escolhe o menu, troca algumas vezes o olhar com Juan, quase num desafio… pelo qual Juan não se deixa intimidar e assume uma postura de “garanhão”.
Escolhe e o empregado afasta-se. Ela deixa-se ficar imóvel, com ar pensativo e abandonado… o que seduz e intriga Juan.
Passam o jantar separados, mas, ligados em olhares e pensamentos.
No fim da refeição, ela levanta-se e dirige-se a mesa de Juan. Acedendo ao convite de intenções de ambos…

Bar do Hotel. Continuam juntos e conversam bastante. Tomam uns digestivos. O espaço é agradável e muito acolhedor, a música é serena, romântica como aquele momento começa a ser, que os seduz e proporciona uma solvência entre ambos.
Três horas depois sobem para o quarto de Juan. Trocam um primeiro beijo arrojado ainda no elevador.

Quarto 304. Assim que entram, com o fechar da porta, enroscam-se em apetitosos gestos de ternura e sofreguidão. Trocam beijos inflamados. Quase se despem. Juan já quase todo despido, pede um pouco de tempo para tomar um duche rápido. Estava decidido a tornar aquela noite mágica e inesquecível.
Ela, com uma maturidade estranha e poderosa aceitou e deixou-o partir.
Passaram apenas alguns minutos. Juan regressa entusiasmado e é confrontado com um pedido inesperado.
Ela, queria leva-lo para sua suíte. Argumentou que na sua suite existia uma piscina interior pelo que a noite seria mais generosa, mais inesquecível…
Juan concordou de imediato. Já estava num ponto de concordância com tudo o que ela sugerisse…

Suite presidencial. Ao entrar, Juan percorreu com o olhar cada pequeno espaço daquela suíte. Estava maravilhado. Sentia-se um verdadeiro “macho” pela sua grande conquista e um ilustre contemplado pelas energias da vida prestigiada…
Depressa retomou as essências daquele corpo divinal. Sentiu-se Rei. Sentiu que estava muito próximo do paraíso.
Foi uma noite de intenso e inesgotável prazer. Juan não deixará o crédito latino por mãos alheias. Os seus trinta e dois anos e a sua performance física também ajudaram.
Já madrugada, adormeceram, corpos enleados por baixo daquele lençol branco de cetim.

Novo dia. Juan acorda lentamente. A cama está quase vazia, ocupada apenas pelo seu corpo. A mulher que conhecera na noite anterior desaparecera. Com o olhar, percorre a suíte e repara num DVD à sua frente, branco e com letras garrafais pretas de um marcador próprio: JUAN 26/01/08.
Levanta-se confuso. Vai a janela para sentir o sol e para enquadrar-se com a realidade matinal. Sente um cheiro incomodativo do tabaco. Segue o cheiro na busca daquele corpo fantasia que animara a sua noite de segredos…e encontra um homem vestido de preto, barba por fazer, e de aspecto intimidador.
Este entrega-lhe um papel sem dizer uma única palavra. Juan, quase sem reacção, pensa múltiplas coisas… e sente o primeiro aperto no coração.
Lê:

ORÇAMENTO – JUAN

SUÍTE:………... 1.500 €
SERVIÇOS:…... 2.500 €
DVD……………5.000 €
EXTRAS:………1.000 €

TOTAL:……….10.000 €

(PRAZO DE PAGAMENTO IMEDIATO)

Juan levanta o olhar em direcção ao desconhecido, que continuava a fumar impávido. Finalmente percebera que aquela noite de luxúria, tinha sido premeditada. Uma noite filmada para um jogo de chantagem em que ele era a única vítima…

8 comentários:

Pedra Filosofal disse...

Bolas... espera um fim qualquer menos este.

As mulheres sabem ser terriveis. eheheheh

agora a sério, adorei mesmo. Pela forma como descreveste as cenas, pela envolvente, pelo desenrolar da história, mas acima de tudo pelo volte-face final!!!

Para quem dizia que não escrevia contos... tá bem, tá.

Beijos
Stone

Vera disse...

Um conto maravilhosamente escrito!
Adorei :)

Beijo

Anónimo disse...
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Rosa Maria Anselmo disse...

ola Paulinho
Direi apenas, que este conto está fantástico, melhor, fabulástico (eu sei que não existe a palavra... mas é mais que fantástico ehehehehhe
jinhos
Rosamaria

Anónimo disse...
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Vera disse...

Vim reler o teu conto!
Uma perfeição Paulinho! É um orgulho e uma honra conhecer-te e poder-te chamar AMIGO!

Beijo

Anónimo disse...
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Pedra Filosofal disse...

Cada vez que leio este conto apetece-me comentar de novo. Mais não seja para te dizer que é espectacular a forma como deste a volta à história.
A qualidade do que escreves veio aqui, mais uma vez, ao de cima.

Já te disse hoje que gosto de ti?

Beijos

Stone