quarta-feira, outubro 10, 2007

Pura Loucura

Peguei nas chaves do carro sem pensar no meu destino. Tinha a ávida necessidade de guiar, por ser algo que realmente me dava prazer e por ter um efeito calmante em mim.
O dia tinha sido delicado. Há dias assim, em que tudo é o que não queremos, em que tudo acontece em cascata… afundando-nos também.
Já no carro e ao som da música erudita deixei o meu pensamento vaguear em desejos banais e por projectos simplesmente normais, tal não era o meu estado de espírito. Pobre coitado! A minha esperança erguia-se com a noite, o luar seria um bom conselheiro e uma praia deserta talvez me devolvesse a sensatez de começar um novo dia, pronto para as intempéries da vida e predisposto a começar tudo com a energia de um novato aprendiz de feiticeiro.
Percorri a distancia que me separava entre a realidade e a loucura, entrei sem pedir, sem ser visto e acomodei-me no primeiro lugar fantasia que encontrei vago.
A loucura é um lugar comum para muitos, mas para mim, incipiente nestas andanças era uma experiência tímida e fugaz, sem malícia e sem pudor…
Finalmente sentia-me livre, totalmente livre, só possível em plena loucura. Depressa apagará o recente passado e imaginava-me no paraíso, construído assim á pressa e sem os detalhes que a vida real exige, coisas só possíveis em activa recuperação da mente e do corpo. Afastará a agonia, primeira medida após entrar na loucura e depressa tinha passado para a segunda fase, a da idealização do nosso espaço inconsciente e benévolo, que nos arrasta para a realização moral e nos recupera para e da realidade diária. Mente e corpo. Na loucura as coisas corriam-me bem… ufa em algum lugar e a qualquer momento tinha que ser, bolas!
O pior foi no dia seguinte, as pessoas quando me viam tentavam adivinhar a minha noite, pelas olheiras, disparavam hipóteses redondas de curiosidade, uns apostavam numa noite de discoteca e uns copos valentes, outros numa noite dormida á pressa e os mais incrédulos numa noite nas urgências de um hospital qualquer.
O meu sorriso saído da minha alegria natural baralhava-os, por ser um contraste com esse aspecto cansado de quem sofre as incongruências da vida.
Todos ansiavam por uma resposta. E eu, não podia falar-lhes daquele sítio chamado loucura, ninguém iria acreditar, passaria por louco…
Recuperado de mau dia, prontamente a minha imaginação engendrou um cenário… uma longa noite de lua cheia, numa praia quase deserta, eu e a minha sereia, com as ondas a marcarem o compasso de uma historia de amor…
Grande maluco! Grande loucura!
Foi o que consegui arrecadar desses inusitados curiosos que comigo labutam diariamente. Pois é! Pois é… Grande e pura loucura!

7 comentários:

Rosa Maria Anselmo disse...

Ola amigo Paulo

Sabes que me podes dizer desse s
sítio cahmado loucura.... vou lá muitas vezes, mas tb não digo a ninguém ainda era hospitalizada de urgência....
jinhos
Adorei o teu texto poético

Rosamaria

Vera disse...

Paulo, nem fazes ideia de como conheço bem a loucura!

Beijo grande

Vera

impulsos disse...

Também gosto de me passear por esses sítios a que alguns chamam de loucura.
Eu chamo-lhe, paraíso inconsciente...
E vou lá muitas vezes, acredita.

Gostei de te ler.
Sabes que sim!

Beijo

Manuela disse...

Paulo,

Essa é uma das loucuras apetecidas que devemos, quase sempre, a nós próprios... As olheiras podem cair até ao chão, não importa. Importa a loucura apetecida, mesmo que nos achem loucos ou não acreditem...

Adorei!!!

Beijinhos*

Vera Carvalho disse...

Ah que belo texto Paulo! Dá vontade de enlouquecer a qualquer hora:). Qual o poeta que ainda não viajou por essa loucura?!
Grande maluco mas feliz:).
Um abraço.

São disse...

Gostei.
Deve continuar lucida/ louco.
Bom fim de semana!

Anónimo disse...

Parabéns Paulo não só por este texto, que está espectacular, adorei, mas também por todos os teus textos e poemas que escreves. São lindos. Continua assim cm és, uma pessoa espectacular com uma disposição invejável e um aqmigo que nunca se consegue esquecer. Um bjinho mt grd pra ti.

Teresa Crespo