quarta-feira, agosto 13, 2008

Teclado Mafioso


(Foto de: Dave Dwire)


Quero escrever mar e descrever cada onda na sua força que transporta todo o meu querer, debaixo de uma água apaixonada, que nos lava a alma. Imagino um azul sedutor e inspiro a confiança de uma maresia amiga que passeia na minha mente, sinto o seu cheiro e visualizo o caminho que preciso de percorrer para chegar até ti.
Quero escrever. Quero descrever os meus secretos sentimentos. Os meus dedos pressionam as teclas em rituais mecânicos. O ecrã anuncia ondas agrestes sem qualquer sentimento e sem a força natural que as caracterizam. Algo acontece e está mal. Não sou eu que alinho as letras que desfragmentadas da razão se apresentam, mas sim, um teclado que se impõem abusivamente. É um teclado mafioso, que, no seu pleno poder, confere o meu estado de alma e decide, por mim, o que quer transmitir aos que comigo comunicam. Sinto-me atado. Chocado. Sinto-me injustiçado e sem capacidade de mudar o rumo dos acontecimentos, que, em cadeia, caiem num marasmo de inércias.
Apenas o teclado, por ser mafioso, desfruta o momento com um prazer atroz. Ri-se desalmadamente de mim e das palavras que brotam no ecrã. Imagina, novamente, as reacções que acontecem. Vive intensamente o seu jogo e brinca, com os sentimentos, usando-nos como meros fantoches. É este o seu momento. É mesmo assim, há dias em que nos apetece vestir a roupagem de um qualquer foragido e hoje foi a vez do teclado.
De mafioso a romântico, ou de outro qualquer, personagem vive intensamente o seu dia-a-dia, este teclado amigo…

1 comentário:

Marta Vasil disse...

Julgo que não foi o teclado mafioso o único a desfrutar o momento com prazer. Também senti um prazer enorme ao ler este texto que me parece deixar transparecer muitos sentimentos, ainda que algo enigmáticos.
Com teclado ou com os dedos, a escrita é mesmo assim: é um caminho sem obstáculos por onde flui um pouco do que temos dentro de nós.

Abraço

MV