segunda-feira, março 31, 2008

Janelas do Coração


(Foto de: Miguel Angel de Arriba Cuadrado)


Da casa em ruínas, abandonada pelas correntes de um presente em que fugimos do campo, talvez pela fuga ao trabalho na terra, ainda recordo os espaços que cresceram em mim e que assim me ajudaram a crescer…
Os soalhos de madeira que rangia quando nos escondíamos nas brincadeiras de crianças e as janelas que, na inocência, saltava à procura das aventuras destemidas do amor. Sim! As maiores loucuras eram pedidas pelo coração…
Recordo esses momentos com uma angústia destemida, ao olhar para aquela casa à espera dos seus últimos dias. A velhice que o tempo não escondeu também trouxe esta realidade tão dura como a que me distanciou da minha infância.
Também me sinto um velhote que alimenta a alma com recordações fortes e coloridas, cheias de momentos alegres e mágicos… Hoje, em cada recordação, abro uma janela do meu coração.
A nossa casa era feita de pedra e cimento por fora, mas por dentro, era forrada a madeira que dava um calor e um ar campestre, num ambiente leve e de constante ternura.
O carinho das assoalhadas, cada uma com a sua responsabilidade, era patente de uma forma natural. Recordo-me que gostava em particular da sala da biblioteca. Talvez por ver o meu pai sempre por lá depois do jantar, sentado no seu cadeirão de leitura, de perna cruzada, com o seu cachimbo na boca e um livro ao colo. Fascinava-me. Fascinava-me vê-lo, e desejava secretamente, que, em adulto, tivesse a minha própria casa com um escritório assim, secretária de madeira trabalhada e um candeeiro de sentinela junto da poltrona. Sempre acompanhado pelas lombadas dos inúmeros livros que pareciam olhar-me e chamar por mim…
Recordo o pátio em terra batida onde jogávamos á bola e assim justificávamos o ralhar da nossa mãe porque, no fim de cada dia, a roupa estava pejada de poeira.
Da cozinha tenho guardado o esconderijo dos bolos que, secretamente, abastecia o meu desejo para preencher o bocadinho que a gulosice arranjava, pois os lanches eram fartos em outros comeres, mas o meu instinto de predador queria doces…
E no meu quarto, lugar das minhas descobertas, carpia os amores não correspondidos e alimentava os sonhos que aqueciam a minha alma. Escrevia bilhetes de esperança que não conseguia entregar. Fazia o meu teatro da vida para que estivesse preparado para num encontro do destino pudesse declamar poemas de conquista à menina dos meus desejos e assim, numa jura de amor, firmássemos um contrato vitalício de união.
Tenho saudades das árvores de frutos, colhidos sem critério, apenas ao sabor de um gosto de quem queria comer uma fruta vistosa e apetecida. Lembro-me que a manga era a minha eleita. Por acaso também era a maior árvore do quintal.
Agora tudo é efémero. Dura apenas o tempo em que abro cada janela do meu coração.
Saber-me feliz nesse passado bem preenchido é a maior força que recebo para entrar pela porta do meu destino.
Hoje já não tenho esse casarão, nem as forças da juventude rebelde! Mas as janelas do meu coração estão abertas… e por elas, deixo-me fugir… em novas loucuras do meu querer!
O que me falta em tempo e em força, é-me compensado pelo conhecimento… do Amor!
Continuo a ver-me sorrir, envolto, na felicidade da vida…

3 comentários:

Pedra Filosofal disse...

Através desta janela para o coração viajei por uma infância desejada.
Também eu gostava de ter poder ter uma biblioteca, com um cadeirão de leitura onde pudesse, em paz, ler e reler os livros que estariam nas estantes, que nem janelas para o mundo.

Já te disse hoje que gosto de ti? pois é, gosto de ti e do que tão bem escreves!

Vera disse...

Um texto magnífico Paulo! É a palavra que me ocorro e que me fica.
A escrita flui livremente, e conseguiste prender-me, ávida, do início ao fim.
Vi-te brincar, senti o cheiro a frutos e a livros. Até ouvi a tua mãe no meio da roupa com boladas de pó desenhadas...
Magnífico Paulo!

Um beijo enorme, cheio de orgulho

poeta_silente disse...

Paulo.
Aqui cheguei por acaso. Um acaso que me fez deparar com um texto lindíssimo. Na realidade, caro Paulo, a felicidade se esconde onde não a queremos ver: - Na simplicidade da vida familiar rodeada pela natureza, que nos dá o alimento, a beleza e o sentimento mais profundo que alguém queira buscar - o Amor.
Nunca o encontraremos em cristais cintilantes, e sim no brilho das estrelas de um céu do interior, que se permite aparecer na escuridão dos campos.
Nunca o encontraremos em músicas barulhentas, recheadas com todos os tipos de instrumentos e gritos - mas sim na sinfonia dos cardeais, dos grilos, dos pássaros aninhados em galhos, os quais nos dão sombra, num dia de calor ardente.
Nunca o encontraremos no movimento estupidamente rápido de carros velozes e famosos, mas sim no borbulhar das águas de um riacho, que percorre caminhos tortuosos por entre os bosques.
Belo texto.
Deus te abençoe.
Miriam