sexta-feira, outubro 17, 2008

Onde anda a felicidade?

Conto os passos que dou. Não paro. Tenho na ausência a necessidade de te saber e, na procura da resposta, perco-me por aí… Oiço vozes dentro de mim, oiço gemidos de lamentação e gritos de raiva. Oiço-me nos que se cruzam comigo mas não paro. E dos passos que já dei onde me entreguei de corpo e alma sobra-me um tempo perdido e umas solas gastas. Deixaste-me! Deixei-me nos passos que dei e distante dos passos que queria dar quando me entreguei à causa que abracei. Felicidade. E desse abraço guardo a lembrança da ternura com que me abracei e ainda sinto a vontade, a esperança e a crença que tinha quando julgava estar tão perto do meu querer…
Hoje sei que me iludi. Sei que o caminho que tracei não me levava a ti. E por mais duro que possa saber, sinto que não sei se um dia conseguirei entrar no espaço certo para que possa esbanjar conscientemente os passos que outrora dei…
Quando já nada me resta, tenho a pergunta, aresta, que me persegue e assalta a mente. Tenho-a bem dentro de mim, a brincar com as vozes que me percorrem o meu espírito entre gritos de desespero, de raiva na encruzilhada do ser e que se agitam com os gemidos, perdidos, de mim ou de um demente que não pára, que já não conta os passos e que sobrevive na procura da resposta que se arrasta e foge como um demónio feito sombra, tão perto e tão longe, tão ausente e tão presente…
Sou o que resta de mim! Que fique bem assente, que não é este o meu fim…
Sento-me, a observar o rio, que segue o seu percurso bem tranquilo, em paz, e, quase de surpresa, bem por cima de mim, sinto a lua cheia, de sorriso escorreito e é nessa hora que tenho a certeza que não é este o meu caminho, que não é este o meu preceito. Eu me deleito. Cresço. Grito. Questiono aos ventos, onde anda a felicidade?
É nesse instante, mínimo, que outra voz assume a sua presença. Traz-me a serenidade em cada palavra e a esperança no canto com que se pronuncia. E na leveza do brilho dos meus olhos procuro o teu rosto tão premente…
Descubro-me! Percebo que a felicidade anda dentro de mim, tímida, escondida, carente de se libertar, necessitada de se expandir…
Encontro o caminho. Sentado. Sem dar passos, sem me perder. Sempre estive tão perto e dependente de mim. Levanto-me e corro de braços abertos em direcção ao profundo desejo. Abraço-te felicidade. Abro o meu peito e chamo o teu nome ao vento.


(apenas precisei de um passo para chegar à felicidade)

6 comentários:

ilucia disse...

A felicidade são momentos de alegria.Basta um gesto,uma palavra,um abraço,um carinho...
E a felicidade rodeia-nos.
Quem não tem estes momentos de felicidade?
Obrigado pelas tuas palavras.
Faz-nos pensar!

Susete disse...

Lindo, tanta sensibilidade...só fico triste porque ainda não a alcancei...a felicidade.
Ao ler cada parágrafo da tua prosa, parece que recuo no tempo vivo tudo de novo, todas as palavras se encaixam na perfeição, não sei como o consegues fazer, mas é reconfortante saber que existe alguém que nos compreende tão bem. Beijo grande

Marta Vasil disse...

"apenas precisei de um passo para chegar à felicidade."

Umas das várias mensagens desta bela prosa, que me convidou a entrar no campo das reflexões.

Quantos "passos" de pensamento, de reflexão, de interioridade, de vozes se percorrem até chegar a esse passo final?

Será que a maior parte das vezes a felicidade está mesmo ali pertinho a piscar-nos o olho e nós não a vemos?

Será que a felicidade está dentro de nós e não o sabemos?

Será que a felicidade depende da visão que temos dela?

Obrigada Paulo por este tão bom momento de leitura "interior".

Um abraço e bom fim de semana

MV

Vera disse...

A felicidade está dentro de nós, só que por vezes, somos tão egoístas, tão ambiciosos, que não a vemos, não a sentimos...
Adorei a tua prosa. Sou suspeita, por ser tua "fã", mas acredita que está realmente muito bonita!

Beijo grande e feliz

Fatima disse...

Adoro os teus textos, amo os teus poemas. Magia sublime nas tuas palavras, impossível de explicar!
Maravilhoso podermos ler o que transborda da tua alma.

Obrigado e Beijo.

Fatima

Pedra Filosofal disse...

A felicidade está sempre a um passo de distância... basta que não se tenha medo de dar esse passo. E que não sejamos demasiado exigentes com a felicidade que podemos atingir. Não podemos quer de mais. Nem de menos.